sábado, 22 de agosto de 2020

Mudar é preciso

Fernando Pessoa, o ilustre poeta português mas tão presente na cultura brasileira, imortalizou na literatura: “navegar é preciso, viver não é preciso”. Ao dizer isso, Pessoa não desprezava o valor da vida, mas enfatizava que para navegar é necessário planejamento, cálculos, entre tantas outras coisas, porém, na vida nem sempre há precisão, sendo que muitas vezes ela é imprecisa, surpreendente, imprevisível…

Tomo a liberdade a partir daqui, de parafrasear o autor lusitano e digo que “mudar é preciso” não apenas no sentido da necessidade mas também no sentido da exatidão. A vida pressupõe movimento e este por sua vez demanda mudança, seja no tempo, no espaço ou em ambos.

De modo prático, não estar disposto a mudança leva a nossa vida a um ponto inercial e improdutivo. Agarrar-se ao que conhecemos, como que fugindo das mudanças que certamente trazem o desconhecido, um dia nos porá frente a situações nas quais não saberemos como agir.

Recentemente, após muitos anos, mudei de casa, indo morar a milhares de quilômetros em distância. A mudança não foi apenas da região em que morava, mas da vida que eu tinha. Foi uma mudança necessária e muito importante no meu crescimento pessoal e de minha família também. Hoje, eu encaro as mudanças da vida como inevitáveis e transformadoras, nem sempre elas são fáceis mas por serem factíveis na vida, demandam de cada um de nós uma decisão do que fazer quando estamos diante delas: ou nos adaptamos a elas e crescemos num contexto de “360 graus” ou esmorecemos e quedamos silentes, aterrorizados, confusos e talvez até depressivos.

É verdade que é mais fácil falar do que fazer, mas também é verdade que mudanças podem ser oportunidades maravilhosas de fazer a nossa vida tão plena como sequer poderíamos imaginar um dia. 

Dizem que toda viagem (aqui significando mudança) começa com um primeiro passo, e é verdade, mas eu entendo que uma viagem, seja ela de que tamanho for, começa um pouco antes: nasce dentro de nós, em nossa decisão.

domingo, 21 de junho de 2020

A Tartaruga Marinha


Foto: Pixabay

Andando pela areia da orla de Santos, que por sinal estava bem sossegada, vi a uns 30 metros, uma tartaruga marinha daquelas enormes que parecia estar saindo da água naquele momento… Enfiei a mão no bolso pra encontrar o smartphone rápido pra não perder a cena… Só pra me frustrar logo depois e perceber que o último bip que eu tinha ouvido não era sms e sim a bateria dando “adeus”…
Mesmo assim, me animei e corri para, pelo menos, admirar a beleza fantástica daquele animal… Talvez num raio de 100 metros não havia mais ninguém, assim fiquei a vontade pra me aproximar… Percebi que ela tava paradinha com a cabeça erguida e imponente como se estivesse olhando o mundo fora d’água com curiosidade… 
A água quebrava em seu casco continuamente… Só que algo me chamou a atenção… Havia um filete de sangue que saia da lateral da cabeça… Chocante olhar pra ela e perceber então que estava morta, parecia viva, majestosa, linda mas já não havia nada a fazer… Ainda fiquei olhando um tempo pra ela, compadecido da cena… “Que pena” – divagava eu nos meus pensamentos… Ainda triste comecei a me afastar, mas não olhei pra trás até tomar certa distância… Só então quando sua imagem era apenas um ponto distante naquela faixa de areia foi que vi, ávidos urubus começarem a despedaçá-la… Nem preciso dizer que uma bela tarde de descanso e contemplação aos pés do mar, acabou com meu dia… Esse caso parece com a vida que muitos de nós levamos, parecemos vivos, cabeça erguida, olhar altivo mas… Estamos “morrendo na praia”… 

O problema além disso, são os muitos abutres que nos cercam… Talvez em muito dependa de nós, sermos dilacerados ou não, mas vale lembrar que “aves carniceiras” NÃO se alimentam de seres “VIVOS”… Tenha uma vida muito feliz!!!





sábado, 13 de junho de 2020

Os meus sapatos e a política




Pensando cá com os meu botões a respeito da "bendita" política de nosso país (e em quem sempre argumenta que papo de política é assunto chato, engrossando a massa daqueles que tornam-se responsáveis por sua omissão, pela deterioração da nossa democracia), lembro das várias oportunidades em que conversei com autoridades nesse país...

Certa vez fui convidado a uma convenção política em um clube elitista e ao transitar pelos amplos salões do lugar, notava que a maioria dos filiados e políticos importantes, ostentavam-se como se estivessem em uma redoma, alheios a tudo o que acontecia lá fora e o assunto em nenhum momento era o que fazer pelas pessoas nesse país, mas sim o que articular para promover esse ou aquele nome do partido para que fossem eleitos no próximo pleito, confesso que me senti desconfortável com tudo aquilo e embora eu estivesse num ambiente maravilhoso, com uma linda vista para a piscina de borda infinita que, parecia misturar-se ao mar logo em frente, abastecida por uma cascata lindíssima que, fazia uma pequena névoa ao chocar-se com a lâmina d'água e sendo interpelado várias vezes pelos garçons do evento se eu desejava me servir disso ou daquilo, ainda sim senti-me deslocado ali...

Em outra oportunidade, tive uma audiência de trabalho com o prefeito da minha cidade (que mais tarde seria o governador do estado). No corredor de acesso ao gabinete, havia lindos quadros de valores vultosos, móveis finos junto a outros caros vasos. Antes de sentar-me próximo ao prefeito, meus sapatos ‘afundaram’ em um tapete muito macio. Ali entre um assunto e outro ficava lembrando de quantas vezes havia sujado aquele mesmo sapato por não haver asfalto nas ruas que eu precisava usar todos os dias, mas claro que políticos não pisam em lama na maior parte de seus mandatos. Seus filhos não disputam vagas em escolas públicas, suas famílias quando precisam de pronto atendimento em saúde, o fazem no Albert Einstein ou Sírio Libanês, entre outros...

Há um certo alvoroço recente pelas prisões de políticos de alto escalão no país, mas a verdade é que nenhum deles vai receber a punição devida, não ficarão presos por muito tempo. E de quem é a culpa? Minha que não é pois sei o que é votar de forma decente. A culpa é de todo brasileiro retardado que gosta de musiquinha (jingle) de campanha; culpa daquele que acha uma honra um político entrar em sua casa em época eleitoral pra pedir votos e quando vai embora e é eleito continua te deixando literalmente na lama; culpa de quem acha correto os "cafézinhos" para se livrarem de multas e coisas parecidas (gente assim é tão bandida quanto qualquer um desses corruptos) e principalmente, a culpa pela desgraça política nesse país é de quem fala que política é uma m... porque são justamente esses, que fazem m... na hora de votar e deixam o Brasil na m... e a m... respinga em quem NÃO FAZ M...


sábado, 6 de junho de 2020

Meu troco de 5 cents




Certa vez, recebi 5 centavos de troco... até aí nada demais... Incomum foi o fato de ser 5 cents de Euro (talvez pela semelhança com a moedinha brasileira quem a passou pra mim, não percebeu). Na cotação daquele dia deveria valer bem mais que o triplo da sua equivalente em Real... Pra não fugir ao hábito, costumo tirar lições de coisas variadas e muitas vezes das mais simples e óbvias...

Muitas vezes, passamos de "mão em mão" e as pessoas não reconhecem nosso verdadeiro valor... nos veem valer apenas "5 centavos" quando sabemos que valemos muito mais... Mas independente daqueles que não nos valorizam, há algo que nunca vai mudar - nosso VALOR! E se outros não enxergarem isso em nós, a culpa não é nossa e sim deles - CEGOS! Acima de tudo, querendo ou não nossos detratores, SEMPRE VALEREMOS MUITO MAIS e nada mudará este FATO.

sábado, 30 de maio de 2020

O vendaval*



Tempos atrás, no litoral de São Paulo onde nasci, um vendaval causou muitos estragos... Árvores foram arrancadas, carros danificados e entre outras coisas, muitas telhas foram lançadas longe espatifado-se pelo chão. 

A maior parte delas por uma simples razão... Parte dos moradores da região costumavam manter as telhas de suas casas apenas encaixadas ou com algum 'peso' em cima, ignorando assim completamente uma boa fixação por parafusos. 

Quando penso na tolice que essas pessoas cometeram, recebendo o resultado do "barato que saiu caro", lembro que fazemos muitas vezes coisas parecidas a essa em outros aspectos da vida. 

Não estamos, quem sabe, "parafusados" em algo sólido na nossa caminhada, quando de repente, somos surpreendidos pelos "vendavais", jogados ao chão, quebrados, feitos aos pedaços, humilhados, sem valor... Apenas para depois termos os "cacos" recolhidos e descartados como se nunca houvéssemos sido úteis, como se nada fôssemos... 

Por isso penso que, se quero ter algum valor, se quero ser útil, se quero ser alguém, para eu mesmo e para outros, então é melhor que eu saiba onde estou FIRMADO, para que eu saiba QUEM SOU e PARA ONDE VOU!!!



*Escrito originalmente em 07 de setembro de 2013


domingo, 24 de maio de 2020

Chave perdida*

Há alguns anos, precisei resolver uma série de compromissos no centro de Santos. Voltando ao estacionamento onde havia deixado minha moto percebi, para a minha agonia, que não encontrava a chave. Procurei em todos os bolsos, em meus documentos, pasta, e nada... Então fiz o que todo mundo faz numa hora assim... Refiz o caminho, olhando para o chão como quem quisesse não deixar escapar um trecho ou centímetro sem ver, por não olhar com atenção para carros e pedestres, esbarrei várias vezes nos outros e fui quase atropelado uma dezena de vezes... Então voltei frustrado por não ter tido sucesso, andando devagar e desanimado imaginando a dificuldade que seria ir atrás de um chaveiro, comprovar que a moto era a minha, explicar pro gerente do estacionamento... etc, etc... Até que numa tentativa incrédula, perguntei a um dono de banca, na Praça da República,
(foto: Carlos Pimentel Mendes, em 6 de junho de 2007)

 se ele havia visto alguém encontrar uma chave como a minha... Já estava preparado para ouvir NÃO, quando ouvi um SIM (e olha que eu nem ia perguntar nada, ia passar direto)... Aquele homem então me disse: "Agora há pouco vi dois pedintes que guardam carros aqui na praça que disseram ter encontrado uma chave... Mas acho que saíram e voltam daqui a pouco"... Então resolvi esperar... Agora com um "fiapinho" de esperança... Passados alguns minutos, o homem me disse: "São eles"... corri até o tal pedinte (de mal aspecto todo maltrapilho) e perguntei: "Amigo perdi a chave da minha moto, e alguém me disse que você e seu amigo, talvez tenham achado uma???"... E aí o homem desfez a cara carrancuda e me disse... 'Sim guardei-a ali...' E me chamou até uma das tantas árvores que existem na praça e cuidadosamente guardada, lá estava ela... Que alívio!!! E ele me surpreendeu dizendo: "Deus me disse pra guardar a chave"... Grato, perguntei: Vocês almoçaram? E eles disseram: 'Não temos dinheiro'... Não pensei nenhum segundo e saquei uma quantidade razoável de dinheiro que nem sequer contei e entreguei a eles (era suficiente para entrarem num dos bons restaurantes da cidade e comerem muito bem)... Aí veio o chocante... Um deles ajoelhou-se aos meus pés (mas eu pedi que ele não fizesse isso, mas nem me ouviu) e agradeceu pelo dinheiro me dando um abraço forte e demorado e pediu pro outro amigo me abraçar também... Na verdade, eu estava tão feliz quanto eles... mas já não era mais pelas chaves... estava feliz por ter sido útil, por ter feito diferença pra aquelas pessoas... Na verdade, Deus pode usar as situações mais adversas para nos ensinar algo... Reafirmei naquele dia em mim, algo que acredito como fundamental.. "Nós não somos 'ilhas' somos na realidade e no mínimo - 'penínsulas', parte de algo muito maior, dependentes do 'continente'... Posso dizer a você que algo aparentemente tão simples assim (alguém encontrar uma chave e devolvê-la), foi uma das 'melhores perdas' da minha vida... Foi o dia em que perdi pouco e em troca ganhei MUITO"...

Escrito originalmente em 31 de agosto de 2013

domingo, 17 de maio de 2020

Placa fria*

Há alguns anos estive em um edifício lindíssimo!




Dentro dele há um complexo com lagos, cisnes, lindas carpas e até

um museu com carros de luxo do século passado, há também lindos animais que percorrem a área verde
e num dia lindo de sol, no alto do décimo andar, meu pai e eu olhávamos extasiados a bonita Santos e o lindo azul do oceano atlântico...

Caso você não conheça o local, seria difícil acreditar na minha afirmação de que estávamos no cemitério mais alto e num dos mais luxuosos do mundo.
Enquanto sepultava mais uma pessoa da minha família notei que os funcionários retiravam um saco azul que continha os restos mortais de um primo que para uma inevitável auto reflexão, quando vivo era muito parecido comigo (embora 5 anos mais jovem) que falecera em razão de uma tragédia, amplamente divulgada pela imprensa na época... Ai fiquei pensando enquanto olhava a cena e as outras lápides ao redor: "a gente corre, luta, chora, sorri.... sejamos quem formos ou tenhamos o que tivermos... Não importa se num cemitério de luxo ou numa cova rasa... Todos temos um limite, que nos iguala... Somos irmãos e humanos, na vida e na morte... Devemos ter em mente que antes de virarmos apenas um nome numa placa fria, podemos viver de modo pleno e digno, tornando a vida o que ela realmente é: Linda!!!"


*Escrito originalmente em 24 de agosto de 2013

Uma história contada por meu pai

  Acho interessante quando, mesmo em meio a era da internet de alta velocidade, com todas as inovações por ela trazidas, pais ainda contam ...